26 e 27 - BATISTAS NO BRASIL

26 e 27 - BATISTAS NO BRASIL
As duas vias

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

9 - OS BATISTAS GERAIS

“Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens...” Tito 2.11

A congregação de Thomas Helwys e John Murton iniciou uma linha de igrejas em solo inglês que seria mais tarde conhecida como os “Batistas Gerais”. John Murton tinha sido um comerciante de peles em Gainsborough-on-Trent, tornando-se um seguidor de John Smyth enquanto na Holanda, e retornando à Inglaterra como um componente do grupo de Helwys. No período em que o líder esteve na prisão, a congregação deve ter sofrido perseguição, tendo que passar algum tempo, talvez, na clandestinidade. Murton tornou-se o líder da igreja após a morte de Helwys (cerca do ano 1616), tendo dado continuidade às linhas básicas estabelecidas.
Por volta de 1624, parece que a congregação estava vivendo momentos difíceis. Nessa época, foi levantada por Elias Tookey e alguns membros a questão da magistratura. Pessoas que trabalhavam para o governo e eventualmente portavam armas por causa de sua função eram consideradas corruptas pelo grupo de Tookey. Havia forte influência anabatista no grupo e o assunto já havia aparecido anteriormente, sob a liderança de Helwys, que defendeu a continuidade daquele grupo de pessoas como membros na igreja. Após deliberação da assembléia, a questão da magistratura foi resolvida com a manutenção dos seus integrantes na igreja e exclusão de Elias Tookey e outras dezesseis pessoas que o seguiam.
John Murton, além das qualidades de liderança, mostrou também talento de escritor, conforme comprovam suas obras. Ele publicou em 1615 um texto chamado“Perseguição por religião julgada e condenada, em um discurso entre um anticristão e um cristão”; em 1620, outro texto sobre predestinação intitulado “Uma descrição do que Deus tem predestinado concernente ao homem”; e, em seguida, um elaborado pedido ao Rei por liberdade de religião, com o subtítulo “Uma súplica muito humilde de muitos dos leais súditos dos reis, que são perseguidos somente por diferirem em religião”. Apesar da feroz perseguição pela igreja estatal, a congregação contava com cerca de cento e cinquenta membros por volta da metade da década de 1620, ocasião na qual os dezesseis membros seguidores de Tookey foram excluídos. A igreja mantinha correspondência com os menonitas de Amsterdam, conforme atestam cartas de 1624 e 1625 preservadas nos registros. Pode ter acontecido que alguns membros da igreja de Smyth da antiga “congregação da padaria” em Amsterdam, de volta à Inglaterra, tenham se juntado às congregações batistas já existentes, mas as informações são imprecisas.
             Houve, na mesma década de 1620, uma tentativa de volta ao batismo infantil entre os batistas gerais, tentando agradar a uma parte da congregação. A maioria, no entanto, continuou firme na defesa do batismo adulto do convertido, o qual foi mantido.
As Igrejas Batistas decorrentes do trabalho inicial de Helwys e Murton passaram a ser chamadas de “Batistas Gerais”, por sua tônica fortemente anticalvinista. Pregavam uma mensagem de salvação universal arminiana ou “de livre arbítrio”, teologia desenvolvida por Jacobus Arminius (1560-1609). O arminianismo entende que o homem tem livre-arbítrio, pelo qual pode crer e aceitar a Cristo livremente, para depois ser regenerado; crê ainda que Deus escolheu aqueles que ele, pela sua presciência, viu que iriam responder com fé à dádiva do evangelho; seu ensino diz que Jesus morreu para tornar possível a salvação a todos os homens; a graça, segundo o arminianismo, pode ser resistida por aqueles que não creem; crentes nascidos de novo podem vir a cair da fé e a perder a salvação. A salvação estendida a todos os homens em geral é o item que define o nome de batistas gerais. Essas igrejas encontraram muita aceitação entre as classes mais pobres de Londres e nas áreas rurais da Inglaterra. Os Batistas Gerais aceitavam a salvação por boas obras e a separação entre igreja e estado. Incorporaram a estrutura administrativa da igreja formada de Anciãos (ou pastores) e Diáconos, como defendia inicialmente John Smyth, bem como praticavam o batismo adulto, com forte ênfase na salvação pessoal individual.
Até a década de 1640, as congregações batistas gerais se espalharam através da Inglaterra e, em 1641, uma reunião geral foi realizada em Whitechapel, Londres, na busca de uma organização geral, semelhante à atual ideia de convenção. São estimadas pelos historiadores cerca de cinquenta congregações ativas por volta de 1650; eram congregações mais abertas e menos estruturadas do que outros grupos independentes. Os batistas gerais sofreram por causa de suas características, já que seus pregadores itinerantes eram considerados criadores de confusão por muitas autoridades civis e eclesiásticas através da Inglaterra, sendo, porém, muito populares entre o povo comum.
Os batistas atuais tiveram seu início nos batistas gerais, cuja origem se liga ao embrião batista de Amsterdam, trazido de volta à Inglaterra e plantado em solo inglês, com começo em Spitalfield. A influência anabatista e de Jacob Arminius era bastante forte, tendo a congregação surgido à sombra da forte igreja menonita holandesa. Opondo-se à visão geral arminiana dos primeiros batistas, surgiram, pouco menos de 30 anos depois, os batistas particulares, assunto do próximo fascículo.

10 - OS BATISTAS PARTICULARES

       "Quem fará alguma acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica.” Romanos 8.33

De acordo com alguns historiadores, a primeira “Igreja Batista Particular” foi fundada no final da década de 1630. Assim diz o historiador Cairns:

“O grupo mais forte de batistas calvinistas ou particulares originou-se de um cisma da congregação de Henry Jacob em Londres, entre 1633 e 1638. Eles defendiam o batismo dos crentes por imersão e uma teologia calvinista que enfatizava a expiação limitada (só para os eleitos). Foi essa congregação, primeiro dirigida por John Spilsbury, que, a partir de 1638, se tornou a mais influente do movimento batista inglês. Os antecedentes do movimento batista norte-americano podem ser encontrados nesse grupo.”

Henry Jacob (1563-1624), citado por Cairns, é um dos nomes mais importantes na história das origens do congregacionalismo inglês. Foi um dos participantes da Petição Milenar a James I, em 1603, solicitando mudanças na igreja anglicana. Clérigo ordenado e ativo no movimento de reforma puritana dentro da Igreja da Inglaterra, foi preso, exilou-se na Holanda (onde participou com John Robinson da congregação de Leyden, assunto ainda a ser abordado) e, voltando à Inglaterra, começou a pôr em prática seus conceitos de um tipo novo de política congregacional, mostrando tradições mais avançadas de separatismo ao defender que a autoridade na escolha de seu pastor era da congregação e de seus membros, não da Igreja Nacional, bem como na determinação de programas e na administração dos negócios da igreja. Em 1615, em Southwark, Jacob formou uma congregação nos moldes do Novo Testamento, apontada como a primeira Igreja Congregacional estabelecida e permanente na Inglaterra.
Desde a formação da congregação de Henry Jacob, o assunto pedobatismo era discutido nas congregações separatistas, coisa que ocasionou cisma na igreja.  Por volta de 1633, criam eles que o batismo não era administrado de forma correta quando aplicado às crianças, julgando alguns que aquele batismo deveria ser considerado inválido. Assim sendo, muitos receberam como adultos outro batismo no pastorado de John Spilsbury. Em 1639, outra congregação foi formada, a qual se reunia em Crutched Fryars. Segundo os historiadores, foi essa a primeira igreja batista particular na Inglaterra.
O calvinismo, movimento que influenciou os batistas particulares, havia dado origem à igreja presbiteriana a partir de 1572. Calvino entendia que o homem é absolutamente incapaz de ir a Cristo por si só, pois está morto espiritualmente e precisa (antes de qualquer ação de sua parte) ser vivificado em seu espírito e renovado em sua vontade; cria ainda que Deus escolheu, de forma soberana e graciosa, aqueles a quem iria salvar, sem que nada neles os habilitasse a isso; afirmava ele que Jesus Cristo morreu para tornar certa a salvação daqueles que Deus havia escolhido na eternidade, os eleitos, chamados de forma eficaz, de modo que todos sejam salvos. Finalmente, creem os calvinistas que todos os que foram verdadeiramente regenerados irão perseverar em sua vida de fé, sem perda da salvação.
Numa tentativa de melhor definir as idéias de Calvino, comparadas com as de Armínio vistas no fascículo anterior, veja-se o esquema a seguir: 

Arminianismo
BATISTAS GERAIS
ü  Livre arbítrio
ü  Eleição condicional  
ü  Expiação Ilimitada
ü  Graça resistível 
ü  Perda da salvação

Calvinismo 
BATISTAS PARTICULARES
ü  Total depravação                 
ü  Eleição incondicional         
ü  Limitada expiação                 
ü  Irresistível graça                 
ü  Perseverança dos santos  

Devido à influência calvinista, os batistas particulares rejeitavam de início qualquer relacionamento com John Smyth ou os primitivos batistas gerais. Por volta de 1643, aconteceu a assinatura da Confissão de Fé Comum, com sete congregações batistas particulares participantes. A Primeira Confissão de Fé de Londres (1644) tornou-se posteriormente a declaração religiosa para os Batistas Particulares londrinos, documento esse que se antecipou à Confissão de Fé deWestminster de 1646. Apesar de não esgotar o assunto, a confissão foi um forte argumento que ajudou a unir os primitivos batistas particulares. Uma segunda confissão foi desenvolvida em 1677, refletindo a Confissão de Westminster (1647) e a Declaração de Savoy (1658), confissões de fé essas que lidavam com assuntos como que tipo de poder as associações representativas nas igrejas tinham sobre as igrejas locais, bem como estabeleciam uma posição sobre o batismo de crentes, ao invés de manter o batismo infantil.
Apesar de a história batista ter seu início com o movimento dos batistas gerais, é, na verdade, aos batistas particulares que a maioria dos batistas modernos deve a maior parte de suas doutrinas e práticas. Como a história afirma, os batistas gerais sempre representaram uma pequena parte da vida batista na Inglaterra, e uma parte menor ainda na América. Por volta de 1644, os batistas particulares contavam, como já se viu, pelo menos com sete igrejas. O movimento batista continuou a crescer e, em 1660, havia 300 igrejas na Inglaterra, considerando-se os gerais e os particulares.
Não há, portanto, uma ligação direta inicial entre os batistas gerais e os particulares, tendo cada grupo tido sua origem a partir do separatismo puritano da igreja anglicana. Embora com origens separadas, cada grupo contribuiu para uma continuação da história batista na Inglaterra, bem como na vinda dos batistas para o Novo Mundo.
Apesar de existirem ainda hoje alguns grupos que neguem sua ligação ao grupo inicial de Smyth, o fato é que a história acabou por juntar, de certa forma, as igrejas oriundas do início geral de Smyth com aquelas congregações particulares que se iniciaram com Spilsbury. Nenhuma dos grupos, porém, levava naquele início o nome de “batista”, que acabou por dar nome às igrejas mais tarde. Aliás, o nome “batista” está relacionado com a introdução da imersão como forma de batismo na história dos batistas, como veremos no próximo capítulo.

11 - IMERSÃO E O NOME "BATISTAS"

“... fomos sepultados com ele na morte por meio do batismo, a fim de que, assim como Cristo foi ressuscitado dos mortos mediante a glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova.” (Romanos 6:3-4)
           
O batismo, ao longo da história do cristianismo, tem passado por muitas visões e práticas diferentes, seja com relação à sua forma, seja com referência ao seu significado.
A forma de batismo por imersão foi usada no começo pela igreja primitiva, já que o sentido da palavra no grego leva a essa compreensão, e foi mantida pela igreja católica romana, em algumas regiões, pelo menos até o século XIII, apesar de tantas heresias introduzidas. A igreja católica ortodoxa ainda o utiliza até os dias de hoje. As formas de batismo por aspersão ou por ablução foram aos poucos sendo introduzidas em algumas regiões, principalmente por causa da temperatura da água nas regiões de clima mais frio, além do atendimento a pessoas que, por deficiência ou debilidade física, não podiam ser batizadas por imersão. De formas de exceção, elas passaram a regra geral com o correr do tempo. Quanto ao significado do batismo, a heresia começou mais cedo, com a mudança de ato simbólico para sacramento e, consequentemente, com a introdução do batismo infantil, lentamente, já a partir dos primeiros séculos do cristianismo. Tal situação continuou até a Reforma Protestante e mesmo depois, tendo sido o batismo infantil e a aspersão mantidos por muitos grupos protestantes.
Partindo-se do separatismo da igreja anglicana, sabe-se que, em 1610, Henry Jacob mencionou a imersão, considerando-a o modo bíblico adequado do batismo, mas não restaurou sua prática. Em 1614, Leonard Busher defendeu-a em Religion’s Peace, dizendo que Cristo “havia mandado ser batizado na água, ou seja, mergulhando para a morte na água”. Nos anos de 1630, Mark Luker, da igreja de Eaton, também defendeu a imersão.
O batismo é realmente a marca inicial batista, mas, como já se viu, a preocupação inicial de Smyth e seus seguidores não foi quanto à forma da ordenança, mas quanto ao seu significado. Em uma época na qual o pedobatismo era a prática cristã comum, a “congregação da padaria” na Holanda passou a entender que, na igreja primitiva, a igreja local era formada por pessoas convertidas e batizadas. A forma de batismo na época foi, segundo se crê, a aspersão, mantida por Helwys inicialmente na Inglaterra entre os batistas gerais.
A forma do batismo por imersão surgiu com os batistas particulares. O Manuscrito de Kiffin (William Kiffin, 1616-1701), documento escrito por um dos primitivos batistas particulares, afirma que, durante os anos de 1640, Robert Blount, um membro de fala holandesa da congregação de Jessey, de Londres, foi enviado à Holanda para se informar sobre a maneira apropriada de batismo, tendo entrado em contato com os Rhynsburgers, ou Collegiants, uma seita liberal de origem menonita baseada nos arredores de Rinjsberg; eles praticavam o “batismo do crente por imersão”. Segundo o documento, em janeiro de 1642, Blount foi devidamente batizado e, retornando à Inglaterra, batizou outro, chamado Samuel Blacklock. Esses dois batistas, então, batizaram os outros 53 membros da congregação. Nem todos os integrantes da igreja de Jessey concordaram com a necessidade do rebatismo por imersão. Alguns questionaram a consulta aos anabatistas e outros expressaram dúvidas sobre sucessionismo, teoria que defende a origem dos batistas nos dias que antecedem o período apostólico, conhecida também como JJJ (Jerusalém, Jordão João), assunto que ainda será estudado. Embora a autenticidade do Manuscrito de Kiffin seja contestada por alguns historiadores, ele se constitui num dos únicos documentos existentes sobre aquele evento da história batista.
No início, muitas pessoas costumavam assistir aos cultos batistas movidas pela curiosidade, para testemunharem a um batismo por imersão, alguns até ridicularizando o ato. O apelido “batista” foi então dado para descrever as pessoas que praticavam essa “estranha” forma de batismo, nome que acabou prevalecendo. A Primeira Confissão Londrina dos Batistas Particulares, de 1644, diz a respeito do batismo o seguinte: “O modo e maneira de dispensação desta ordenança é, segundo as Escrituras, mergulhando ou imergindo todo o corpo na água”.
A primeira referência conhecida quanto ao nome das igrejas como “Batistas” na Inglaterra data de 1644, denominação inicialmente rejeitada por eles, que usavam outros nomes, como “Irmãos”, ou “Irmãos do Caminho Batizado”, sendo as congregações chamadas de “Igrejas Batizadas”. Oponentes iniciais dos batistas frequentemente os chamavam de anabatistas ou outros nomes menos apropriados, o que era também por eles rejeitado. Na confissão de fé de Londres de 1644, por exemplo, o grupo de igrejas que a assinam se identifica como “os cristãos comumente (embora falsamente) chamados Anabatistas”. O nome “batistas”, assim como acontecera anteriormente com o nome “puritanos”, dado por pessoas exteriores ao movimento com propósitos pejorativos, acabou prevalecendo.
Historicamente falando, o modo batista de ser igreja não nasceu pronto, acabado, mas suas doutrinas e práticas foram sendo incorporadas como conquistas ao longo do tempo, muitas vezes de forma difícil, no enfrentamento de oposições e perseguições. É preciso conhecer nossa história, para valorizarmos nossas conquistas e lutarmos pela preservação da fé cristã como vivida pelos batistas.
A música era outra prática que não fazia parte do culto batista no início, mas houve um pioneiro e um momento em que o louvor musical foi introduzido no culto; é o assunto do próximo fascículo.

12 - A MÚSICA E O CULTO BATISTA PRIMITIVO

"E, tendo cantado o hino, saíram para o Monte das Oliveiras.” Mateus 26.30.

O texto que inicia este estudo se refere a Jesus e seus apóstolos. O livro de Atos não entra em detalhes sobre a ordem de cultos da igreja primitiva ou se a música era utilizada.  E quanto aos batistas, como era o seu culto a Deus, quando a igreja iniciou suas atividades neste mundo, 400 anos atrás?
No princípio, os cultos batistas eram bastante longos, às vezes com vários sermões, e nos dias iniciais não havia música ou canto. O registro mais antigo de um culto batista que se conhece é de 1609, do grupo ainda em Amsterdam, em uma carta de Hughe e Anne Bromhead, que, relatando uma “ordem de culto” inicial, assim dizia:

“A ordem do culto e direção de nossa igreja é: Primeiro, nós começamos com uma oração, depois a leitura de um ou dois capítulos da Bíblia que deem sentido à reunião e a direcionem; isso feito, nós deixamos nossos livros de lado e, após uma oração solene feita pelo 1º orador, ele propõe algum texto próprio da Escritura e profetiza sobre o mesmo, pelo espaço de uma hora, ou três quartos de uma hora.” (tradução livre do autor dos fascículos, partindo do original inglês do século XVII).

A carta de Bromhead conclui dizendo que “este exercício da manhã começa às oito horas e continua até doze horas; o mesmo curso de exercício é observado à tarde, das 2 até 5 ou 6 horas”. O casal mencionado, Hughe e Anne Bromhead, fez parte dos membros fundadores da “congregação da padaria” no fascículo 5 e, na separação havida, ficaram ambos com Smyth e os menonitas. Segue, como curiosidade histórica, o texto em inglês antigo, linguagem característica da época, contemporânea ao inglês da versão “King James” da Bíblia:

“The order of the worshippe and government of oure church is . 1. we begynne wth a prayer, after reade some one or tow chapters of the Bible gyve the sence thereof, and conferr vpon the same, that done we lay aside oure bookes, and after a solemne prayer made by the 1. speaker, he propoundeth some text owt of the Scripture, and prophecieth owt of the same, by the space of one hower, or thre Quarters of an hower. This Morning exercise begynes at eight of the clocke and continueth vnto twelve of the clocke the like course of exercise is observed in the afternowne from .2. of the clock vnto 5. or 6. of the Clocke."

Sobre a música no culto, o reformador Lutero disse: “Próximo à Palavra de Deus, a música merece o mais alto louvor. O dom da língua combinado com o dom do canto foi dado ao homem para que ele pudesse proclamar a Palavra de Deus através da música”. Não foi essa, porém, a compreensão dos batistas no início de suas atividades como igreja. A música não estava presente nos primeiros e longos cultos batistas, que tinham sua ênfase na leitura e exposição bíblica e na oração, conforme já focalizado. Parece que havia nos pioneiros da obra um desejo de cultuar a Deus de forma a afastar-se das práticas heréticas, numa busca do cristianismo neotestamentário. Como a música já estava incorporada às igrejas cristãs em geral, tanto católica quanto anglicana, os primeiros batistas não a utilizaram de início.
Diz Bill Prater, em seu texto “História da Música na Igreja Batista”: “ ... há uma história chamada ‘Cantar ou não cantar’. É sobre um homem com o nome de Benjamin Keach que, com a idade de 28 anos, tornou-se pastor da Igreja Batista em Horsleydown, Londres”. Keach também viera da Igreja Anglicana, tendo sido batizado quando criança, mas, com a idade de 15 anos, ele se juntou aos Batistas Gerais e, com 18 começou a pregar. Mais tarde, uniu-se aos Batistas Particulares. Diz a história ter sido ele preso várias vezes, por pregar o batismo do crente.
Salientando em Benjamin Keach seu relacionamento difícil como ser humano, diz o autor citado que, entre as polêmicas nas quais o pastor esteve envolvido, uma delas foi a questão de haver ou não haver cântico congregacional em cultos públicos, a chamada “Controvérsia do Cântico”. Acredita-se que a igreja de Keach foi provavelmente a primeira entre os batistas a introduzir o cântico congregacional, usado inicialmente apenas após a Ceia do Senhor. Cerca de vinte anos depois, após muito conflito, a congregação já cantava todos os domingos, mas somente após o sermão e as orações. O autor ressalta que os dissidentes saíam do prédio da igreja, permanecendo no pátio de entrada porque “eles não podiam conscientemente permanecer e ouvir o cântico”. Esses dissidentes eventualmente se desligaram da igreja e formaram outras unidades, situação que se repetiu no ambiente das igrejas batistas inglesas durante algum tempo.
Em 1691, Benjamin Keach publicou um hinário intitulado “Melodia Espiritual” (Spiritual Melody), contendo cerca de trezentos hinos sacros. O problema nos dias de Keach parecia ser a dúvida se era carnal ou espiritual a introdução da música no culto, além do uso de um hinário, um livro que não era a Bíblia. Durante a “Controvérsia do Cântico”, vários argumentos foram levantados contra a novidade; entre eles podemos destacar:
ü  Não ser ordenado pela Bíblia que devesse acontecer.
ü  Nada indicar que a igreja primitiva cantasse.
ü  O cântico levar a um formalismo, já que era encarado como uma oração escrita.
ü O cântico congregacional comprometer a pureza da igreja, já que dele participavam salvos e não-salvos.
Hoje, entre os batistas do século XXI, a controvérsia do cântico permanece, não mais se questionando ser ou não bíblico o uso da música no culto, mas que tipo de melodia, de ritmo e que instrumentos podem ser usados no acompanhamento do cântico, tanto congregacional, quanto coral, ou de outros grupos.
Sendo a sua forma de governo congregacional, os batistas não possuem um governo central ou um líder maior, sendo cada congregação autônoma nas suas decisões. Não houve, por exemplo, interferência de um organismo central para definir a “controvérsia do cântico”. No entanto, existem convenções, associações e outros tipos de agrupamentos que procuram organizar a cooperação entres as igrejas. Quando foi que isto começou? Este é o assunto do próximo fascículo.

13 - A ASSOCIAÇÃO BATISTA

“... pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor maior encargo além dessas coisas essenciais: que vos abstenhais das coisas sacrificadas a ídolos, bem como do sangue, da carne de animais sufocados e das relações sexuais ilícitas; destas coisas fareis bem se vos guardardes. Saúde.” (Atos 15.28-29)

Tal como no passado, quando a Igreja Primitiva se reuniu em Jerusalém para debater problemas surgidos com o crescimento do evangelho entre os gentios, conforme se lê em Atos 15, quando orientações gerais foram divulgadas entre as igrejas para uniformidade de atitudes sem interferência nas congregações locais, também os batistas têm mantido trabalhos associacionais ao longo dos quatro séculos de existência, começando na Inglaterra. Colaboração e espaço para discussão de ideias visando a uma maior uniformidade sempre foram ações aceitas no meio batista, respeitando-se sempre a autonomia da igreja local. “Unidade na diversidade” parece ser um rumo sempre buscado ao longo da história batista, embora de difícil manutenção.
Historicamente, a organização da denominação batista partiu da noção do que seria uma igreja local, dando-lhe uma autonomia e liberdade de gestão que geralmente não se encontram na maioria das denominações e grupos cristãos. Não aceitam os batistas um governo central, que interfira nas decisões locais das igrejas, que são autônomas. No entanto, a estrutura batista de associações para organização e cooperação das igrejas existe desde as origens batistas do século XVII, tendo sido desenvolvida gradualmente com a passagem do tempo, com o nome de convenção, associação, união ou qualquer outro, permanecendo este fato como uma parte vital da estrutura denominacional até hoje.
Entre 1624 e 1630, várias igrejas batistas gerais em Londres atuaram juntas na discussão de doutrinas e na correspondência com outros crentes. Cada ramo dos batistas ingleses chamava sua organização nacional de Assembléia Geral. Composta de representantes das várias igrejas e associações, essas Assembléias Gerais geralmente se reuniam em Londres. Os batistas gerais foram os primeiros no desenvolvimento dessa organização nacional, em meados do século XVII, fato que corresponderia hoje a uma convenção nacional. Os batistas gerais, de início, consideravam uma reunião da Assembléia Geral como se fosse uma reunião da “Igreja Batista Geral”, com plena autoridade para agir com ações eclesiásticas, mas os particulares nunca permitiram a uma associação ou a sua Assembléia Geral se tornar “a Igreja” ou a promover ações eclesiásticas, procurando proteger a liberdade da igreja local e impedir a denominação de interferir em seus negócios.
Os registros históricos da Inglaterra mostram que a União Batista (Baptist Union), nome dado hoje à convenção que reúne as igrejas batistas na Grã Bretanha, foi formada em 1832, mas somente em 1891 a organização conseguiu agregar Batistas Gerais e Batistas Particulares. A União tem treze associações regionais distribuídas no país, cada qual com administração local e suporte ministerial para as igrejas, procurando atender as suas necessidades. As lideranças regionais se reúnem durante o ano, buscando ajudar transições pastorais nas igrejas e acompanhamento dos formandos nos seminários teológicos.
Dentro do assunto “História Batista”, o site oficial da União informa que “o moderno movimento batista nasceu no século XVI e é hoje uma denominação ao redor do mundo, com milhões de crentes adorando em congregações batistas”. Destaca ainda o endereço virtual várias datas históricas em ordem cronológica, entre as quais temos:

ü  1612 – A primeira igreja batista em Spitalfields, Londres
ü  1689 – Ato de Tolerância do governo inglês, permitindo liberdade de culto
ü  1792 – Fundação da Sociedade Missionária Batista por William Carey, hoje conhecida como BMS World Mission (assunto a ser ainda abordado)
ü  1812 – Encontro de um grupo batista na residência do Dr. Rippon, em Londres, para discutir a formação de uma União Batista
ü  1813 – Realização  da 1ª Assembléia Batista em Londres
ü  1832 – União Batista definitivamente estabelecida
ü  1837 – Reverendo George Cousens, o primeiro ministro batista indiano registrado, assumindo um pastorado na Bretanha, tornando-se pastor da Igreja Batista Quatro Caminhos (Four Ways Baptist Church), em Cradley Heath, Staffordshire
ü  1854 – Começo do ministério de Spurgeon, um dos mais famosos pregadores batistas
ü  1855 – Aparecimento, pela primeira vez, da publicação “O Homem Livre” (The Freeman), hoje chamado de “Os Tempos Batistas”
ü  1891 – União de Batistas Gerais e Particulares, formando a atual União Batista da Grã Bretanha
ü  1905 – Formação da Aliança Batista Mundial e realização de seu primeiro congresso em Londres (assunto que será tema de fascículo no final da série).


Até aqui, partindo da igreja de Atos dos Apóstolos, acompanhamos a origem histórica dos batistas na Inglaterra. A partir da abertura de oportunidade para a colonização do Novo Mundo, surgiu entre os dissidentes da Igreja Anglicana, inclusive os batistas, um anseio de liberdade e de conquista de novos espaços e opções para a vida, tanto material como eclesiástica. Começando com o Mayflower, milhares de colonos vieram para a América, na implantação dos atuais Estados Unidos. A partir do próximo fascículo, começaremos a acompanhar as origens batistas nos Estados Unidos da América, pois foi através deles que a igreja chegou até nós, no Brasil.Será que havia algum relacionamento entre os peregrinos do Mayflower e os batistas? É o assunto do próximo segmento.

14 - OS BATISTAS E O "MAYFLOWER"

Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo.” (João 18.36b)

Os puritanos alimentaram, durante algum tempo, a esperança de verem concretizadas na Igreja da Inglaterra as reformas que o grupo de exilados viu acontecendo no continente europeu, como reflexo da obra de Lutero e Calvino. Ansiavam pelo dia em que todos os “trapos do papismo” teriam sido extirpados da igreja oficial de seu país. Por isso, permaneceram aguardando e trabalhando pelas reformas. No entanto, tanto Elizabeth I quanto James I estavam mais preocupados em governar e administrar tudo politicamente, contrariando o ideal puritano de reformas mais profundas.
Em abril de 1603, o rei James I recebeu a "Petição Milenária", na qual os puritanos faziam pedidos de mudança, o que provocou a convocação de uma conferência em Hampton Court entre bispos e puritanos, acontecida em janeiro de 1604, com a presença do rei. No encontro, nenhuma das mudanças foi atendida, exceto a permissão para elaboração e impressão de uma nova tradução da Bíblia para a língua inglesa, a versão King James. A partir daí, o Separatismo aumentou e John Smyth, ex-clérigo da igreja estabelecida, tornou-se pastor de uma congregação em Gainsborough. Outras congregações foram formadas, uma delas na casa de William Brewster, em Scrooby, dirigida por John Robinson.
Sentindo o peso da perseguição, os membros das duas congregações, a de Gainsborough, e a de Scrooby, seguiram o mesmo caminho para a Holanda, a partir de 1607. William Bradford, então com 12 anos de idade, tornou-se um ativo membro da congregação de Scrooby, ele que, mais tarde, seria o primeiro governador da colônia de Plymouth, na Nova Inglaterra. Na Holanda, embora os grupos ainda mantivessem correspondência, a congregação de Smyth e Helwys fixou-se em Amsterdam, enquanto o de Brewster e Robinson passou a residir em Leyden.
Dois grupos de puritanos separatistas diferentes, comungando inicialmente dos mesmos ideais de reforma da igreja, buscando uma aproximação do modelo do Novo Testamento, refugiados no mesmo país, mas sediados em cidades diferentes, viveram histórias com finais diferentes. O grupo de Smyth em Amsterdam partiu para a criação da Congregação da Padaria, que deu origem aos batistas, como já se viu.
O grupo de Robinson em Leyden parecia estar mais preocupado com o destino da nova geração, para quem seus integrantes viam dificuldades, tanto na vida em um país estrangeiro, com costumes diferentes, quanto na volta eventual à Inglaterra, onde não havia perspectiva de mudança no panorama político-religioso. Na Holanda, cultura e língua eram estranhas e difíceis para a congregação inglesa, além de costumes morais considerados muito libertinos, influenciando seus filhos que, pouco a pouco, se tornavam mais holandeses, levando a congregação a temer que ela viesse a ser extinta como cultura inglesa se ali permanecesse. Por volta de 1617, Bradford relatou em texto o desencorajamento que a dura vida holandesa estava provocando em parte da congregação, além da esperança de se encontrar lugar melhor e mais fácil para viver, bem como o nascente desejo de propagar o evangelho do Reino de Deus nas distantes terras da América. Com parte do grupo em dificuldades financeiras e sem grandes oportunidades de ganharem seu sustento, tendo mesmo alguns retornado para a Inglaterra, a época de decisão parecia ter chegado. Havia, com certeza, medo do desconhecido, alimentado por notícias de investidas coloniais que não deram certo, de nativos violentos, de inúmeras dificuldades com relação à travessia por mar, doenças não conhecidas, mas o ideal de uma Nova Inglaterra já povoava suas mentes. Virginia era um destino possível, embora representasse uma colônia que reproduzia as condições religiosas da Inglaterra, com a igreja anglicana estabelecida. Negociações para um estabelecimento próximo à área, mas com independência nas decisões, foram concluídas em 1619, no nome de John Wincob, com a condição imposta pelo rei de que não se reconhecesse oficialmente o grupo religioso de Leyden, por serem dissidentes. Em 1620, o Conselho de Plymouth recebeu o documento de concessão real de um território ao norte da colônia de Virginia, já existente na época, mas independente dela em seu governo.   
Como nem todos os membros do grupo pudessem viajar no mesmo ano com o primeiro grupo, foi decidido que apenas os mais jovens e fortes partiriam na primeira expedição, ficando os remanescentes para uma segunda viagem quando fosse possível. Robinson deveria permanecer em Leyden com o grupo maior da congregação e Brewster lideraria a congregação americana, havendo o entendimento de que ambas as congregações mantivessem inicialmente um rol de membros único e uniforme.
Finalmente, em agosto de 1620, o Mayflower partiu com pouco mais de cem passageiros, boa parte dos quais vieram de Leyden, sendo 28 adultos membros da congregação. Após alguns meses, em dezembro do mesmo ano, com muitos incidentes de viagem, morte de um dos tripulantes e nascimento de uma criança, cuja mãe estava grávida ao embarcar, a viagem chegou ao fim e a colonização da Nova Inglaterra começou. O nome dado à criança nascida durante a travessia foi "Oceanus".
Por isso, enquanto os ingleses reunidos na padaria de Amsterdam deram origem a uma nova concepção de igreja que se tornaria em uma denominação das mais importantes no Novo Mundo, os compatriotas de Leyden começaram aos poucos a colaborar com o início da colonização norte-americana, na perspectiva de tentarem vida nova num mundo novo.
1612 é o ano aceito pela história como o da fundação da primeira igreja batista histórica inglesa, aquela que teria continuidade, se firmaria e daria frutos. Smyth havia iniciado sua concepção, Helwys dera continuidade e Murton o substituiria após sua prisão e afastamento da liderança do trabalho, conforme já se viu.
1620 foi o ano no qual o navio Mayflower trouxe da Inglaterra para a Nova Inglaterra os “Pais Peregrinos”, com passagem pela Holanda, onde a idéia inicial havia recebido adesão: um grupo de puritanos separatistas ingleses, que buscava novos ares e liberdade para viver e cultuar a Deus da forma como imaginavam ser ideal. Não deviam ser batistas os Pais Peregrinos ao chegarem a Plymouth, mas, tendo conhecido os pioneiros batistas na Holanda, certamente conviveriam com inúmeros outros batistas em anos posteriores, após o estabelecimento inicial da colônia, já que muitos dentre os batistas também acabariam por optar mais tarde pelos novos ares e pela liberdade no Novo Mundo. Afinal, entendiam todos que a Igreja deixada por Cristo estava retratada no Novo Testamento e de lá buscavam a inspiração para sua religião com Deus.

Seria muito difícil entender-se a colonização norte-americana, bem como a expansão da história batista pelo continente, sem o conhecimento dos “puritanos da Nova Inglaterra”. Isto será o assunto do próximo fascículo.

15 - PURITANOS NA NOVA INGLATERRA

“Farei uma aliança entre mim e ti e te multiplicarei extraordinariamente.”Gênesis 17.2

As condições político-religiosas na Inglaterra, cuja reforma da igreja se iniciou a partir de Henrique VIII, passando pelos Tudors, precisava ser redirecionada pelos Stuarts. Quando James I assumiu em 1603, iniciando a nova dinastia, sentiram as lideranças religiosas dos puritanos separatistas que a igreja estatal permaneceria e a intolerância e perseguição religiosas continuariam com a nova dinastia no poder. Fuga para o continente europeu, volta para as Ilhas Britânicas e enfrentamento dos problemas foram soluções adotadas por muitos grupos, como os batistas. No entanto, houve aqueles que vislumbraram uma outra saída: a do Novo Mundo, atravessando o Atlântico e iniciando nova vida, com novos propósitos, numa “Nova Inglaterra”. Aventureiros, religiosos de várias origens, mas principalmente os puritanos viram aí uma grande oportunidade.
Os puritanos começaram a se estabelecer na América a partir da colônia de Plymouth, Massachusetts, tendo os pioneiros vindo no navio Mayflower; uma parte era formada de puritanos-separatistas remanescentes dos refugiados de Leyden, conforme se viu. A visão do puritanismo inicial pode ser resumida nos seguintes itens: a. a salvação pessoal vem diretamente de Deus; b. a Bíblia contém o guia indispensável para a vida; c. a igreja deve refletir o ensino expresso na Escritura; d.  a sociedade é um todo unificado; e.  o processo da conversão deve ser enfatizado;  f. a “aliança” com Deus precisa ser concretizada.
Por “aliança”, entendiam eles que Deus havia transferido as bênçãos, que tinham sido atribuídas ao povo de Israel no Velho Testamento, ao “novo Israel”, ou seja, ao povo inglês e, com a abertura de oportunidade no Novo Mundo, mais especificamente aos puritanos da América. Os puritanos que vieram para o Novo Mundo expandiram a idéia da aliança, que, aliada ao ideal da sociedade como um todo unificado, levou-os à organização das igrejas e das “comunidades santas”, das quais as de Massachusetts e Connecticut foram grandes exemplos.
Nessas comunidades, o ministro religioso e o magistrado civil eram os homens mais importantes da colônia e ninguém tinha o direito ao voto nas decisões se não fosse membro da igreja local. A reprovação da igreja era considerada a penalidade mais séria que poderia recair sobre alguém que errasse. Os sermões eram de duas, três e às vezes quatro horas de duração, e a função dos oficiais da igreja era, entre outras, observar a ocorrência de sonolência, acordando os que dormiam, às vezes de modo rude.
Sobre a vida da família puritana, escreveu William Gouge:
“… uma família é uma pequena igreja e uma pequena comunidade, no mínimo uma representação viva delas, vivenciando o ambiente como lugar de autoridade ou de sujeição, tal como na igreja ou na comunidade. Ou melhor, é uma escola onde os primeiros princípios e bases de governo e sujeição são aprendidos: onde as pessoas são treinadas para assuntos maiores na Igreja ou na comunidade”.
Portanto, a ordem na família estruturava fundamentalmente a crença puritana. A essência da ordem social se baseava na autoridade do marido sobre a esposa, dos pais sobe os filhos e dos mestres sobre os servos. Disse o puritanoRichard Greenham: “Pais e mães têm ‘filhos desordeiros e desobedientes’ porque eles têm sido filhos desobedientes ao Senhor e foram desordeiros aos seus pais quando eram jovens”. Como o dever de cuidados iniciais com a criança recaía exclusivamente sobre as mulheres, para a comunidade, a salvação eterna da alma de uma mulher dependia necessariamente do observável bom comportamento de seus filhos.
Diferentemente de outras colônias, os puritanos normalmente migraram para a Nova Inglaterra como uma unidade familiar. Homens puritanos da geração da Grande Migração (1630-1640) criam que uma boa esposa puritana não permanecia na Bretanha, mas acompanhava e encorajava seu marido em seu grande serviço a Deus. John Winthrop em 1630 disse que a sociedade que eles formariam na Nova Inglaterra seria “como uma cidade sobre uma colina” e que eles precisavam se tornar uma comunidade pura de cristãos que estabeleceria um exemplo para o resto do mundo. Para atingir esse objetivo, os líderes da colônia educariam todos os puritanos.
Pela primeira vez, talvez, na história da humanidade, foi oferecida escola livre a todas as crianças. Os puritanos criaram a primeira unidade escolar formal em 1635, chamada Escola de Latim Roxbury. Em 1636, o primeiro College Americano foi estabelecido: Harvard em Cambridge, hoje Universidade. Crianças de 6 a 8 anos frequentavam a “escola maternal”, onde a professora, geralmente uma viúva, ensinava leitura. Diferentes formas de escolarização eram oferecidas para meninos já letrados em inglês e preparados para dominar gramática preparatória de latim, hebraico e grego. Para as meninas, escolas de leitura seriam as únicas fontes de conhecimento. Na verdade, o sexo determinava as práticas educacionais: as mulheres iniciavam todas as crianças na leitura, posteriormente os homens ensinavam os meninos em conhecimentos mais elevados. Já que as meninas não poderiam desempenhar nenhum papel futuro no ministério, e desde que as escolas de gramática eram destinadas a “instruir a juventude até que pudessem estar prontos para a universidade”, as escolas de gramática latina não aceitavam garotas, incluindo Harvard. A motivação para educar era a necessidade de leitura das Escrituras. Um bom dever puritano era o de pesquisar pessoalmente a verdade bíblica.
Por volta dos anos 1670, quase todas as colônias da Nova Inglaterra haviam criado legislação que tornava obrigatória a educação infantil. Em 1647, Massachusetts criou uma lei que exigia das cidades a contratação de um professor para ensinar a escrever. Motivos sociais para a instrução obrigatória de leitura partiram da concepção de que crianças que não fossem ensinadas a ler seriam “bárbaras”, sendo o analfabetismo considerado um “barbarismo”.
Qualquer desvio do modo de vida normal dos puritanos provocava estrita desaprovação e disciplina, bem como qualquer infração religiosa era considerada uma infração social. Palavras como enxofre e fogo do inferno fluíam da boca de ministros eloquentes quando eles alertavam sobre o poder de persuasão do diabo. A leitura da Bíblia era necessária para se viver uma vida piedosa e a educação da próxima geração visava a melhor “purificar” a igreja e aperfeiçoar a vivência social.
 Os chamados “Pais Peregrinos” fundaram uma colônia inicial em 1620. Em 1630, chegou uma nova leva de colonos, que fundou as cidades de Boston, Cambridge, Lynn e outras. Até 1640, 20.000 pessoas haviam se estabelecido em Massachusetts, vindas da Inglaterra. Esse foi o ambiente encontrado por Roger Williams, John Clarke e os pioneiros do trabalho batista no Novo Mundo. O início da saga de Roger Williams será o assunto do próximo fascículo. 


ÍNDICE DOS FASCÍCULOS

Introdução 1)    16 séculos de Igreja Cristã 2)    Anglicanismo: a Igreja do Rei 3)    Puritanos, Separatistas, Batistas 4)    A “C...