26 e 27 - BATISTAS NO BRASIL

26 e 27 - BATISTAS NO BRASIL
As duas vias

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

6 - O REMANESCENTE FIEL

“Assim, pois, também agora, no tempo de hoje, sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça.” Romanos 11.5
           
O trecho a seguir foi extraído do texto “Lições da Padaria”, de David Coffey, presidente da Aliança Batista Mundial em 2009, um dos primeiros líderes batistas atuais a usar a expressão “congregação da padaria” com referência ao embrião inicial batista:
“Em Amsterdam, a recém-formada congregação da padaria criou uma comunidade cujo louvor e vida em conjunto refletiam mais verdadeiramente o modelo da igreja de crentes do Novo Testamento. Os estudos e conversas da comunidade eventualmente levavam à rejeição da prática do batismo infantil e a uma recuperação da ênfase no batismo do Novo Testamento, que é o batismo dos crentes na base do arrependimento e fé no Senhor Jesus Cristo.”
Assim, John Smyth, que era formado em teologia e havia sido ministro anglicano, batizou-se a si mesmo e aos demais ingleses, num grupo de cerca de cinquenta pessoas. Infelizmente, a “congregação da padaria” permaneceu batista durante muito pouco tempo, talvez menos de um ano após a organização. O que motivou a separação entre os seguidores de Smyth e os de Helwys?
A partir de uma carta preservada como fonte histórica, datada de 12 de março de 1609, podemos deduzir que John Smyth e seus seguidores se arrependeram de seu batismo e que Smyth “confessou seu erro” diante da congregação em janeiro ou fevereiro de 1609, segundo o historiador Scheffer; por essa razão, o grupo foi afastado da recém-criada igreja. Os anos citados por Scheffer podem levar à suposição de que a congregação na padaria tenha sido organizada em 1608, no segundo semestre, e não 1609, conforme é aceito pela maioria dos historiadores.
Dez pessoas permaneceram firmes na fé de que o que havia sido ali realizado até então era de acordo com a vontade de Deus. Thomas Helwys, John Murton, William Pygott e Thomas Seamer, além de mais seis irmãos ou irmãs (cuja identidade não é conhecida), mantiveram-se firmes no propósito que havia levado à organização inicial. Helwys opôs-se fortemente à visão de Smyth, segundo a qual não havia sido válida a organização em igreja da congregação na padaria de Jan Munter, insistindo o líder leigo, em vez disso, em que a formação de uma igreja neotestamentária dependia somente da fidelidade às instruções bíblicas. Os irmãos remanescentes decidiram não somente continuar a viver aquele projeto em Amsterdam, mas também, reunidas as condições necessárias, retornar à Inglaterra para testemunharem do evangelho segundo suas novas crenças, que não eram tão novas assim, mas tinham dezesseis séculos de história, já que eram baseadas no Novo Testamento e inspiradas na Igreja Primitiva e no evangelho apostólico.
Enquanto ainda na Holanda, Helwys resolveu dar suporte teológico à continuação do trabalho de sua congregação. “Uma Declaração de Fé do Povo Inglês que permaneceu em Amsterdam”, publicado na Holanda em 1611, tem muito conteúdo tirado dos escritos de Smyth antes da adesão aos menonitas, mas opõe-se a posturas defendidas por ele após sua decisão. Em vinte e sete artigos, o texto procura cobrir os itens essenciais da fé daquele remanescente que permaneceu fiel aos ideais batistas de congregação formada por crentes batizados após a conversão. Nele, Helwys e o grupo que o acompanhou afirmam vários princípios que, durante quatro séculos, têm continuado a caracterizar a identidade batista:
ü  Membresia da igreja baseada em conversão pessoal e no batismo do crente;
ü  independência de cada igreja local;
ü  governo congregacional da igreja;
ü  apoio a completa liberdade religiosa;
ü  oficiais (pastores e diáconos) selecionados pela congregação local.
A nova igreja não tinha grandes objeções aos menonitas e os considerava como irmãos na fé. Seus membros mantiveram ainda relações próximas com eles, mesmo depois da volta à Inglaterra, mas não reconheceram que tinham errado no modo do batismo que havia sido praticado; fazer isso seria desonrar a legalidade da existência de sua igreja. Levando em conta a disciplina eclesiástica, Helwys e seus seguidores excluíram Smyth e todos os demais do rol de membros, decisão bastante difícil de ser tomada. Dois anos após o fato, Helwys lamentou o ocorrido, enaltecendo as qualidades de Smyth, mas declarando ter chegado à conclusão de que não podiam mais compactuar com suas opiniões, tendo sido levados àquela decisão extrema.
É interessante observar-se que a minoria (dez membros) excluiu do rol da igreja a maioria (cerca de quarenta pessoas), indo, porém, se reunir em outro lugar a partir daquele momento, pois a padaria havia sido cedida em um acordo entre Smyth e Munter. Como Smyth havia aderido aos menonitas, sendo Munter – seu proprietário – membro da Igreja Menonita Waterlander, o grupo que deu sequência à chamada “congregação da padaria” nos moldes batistas deixou de lá se reunir.
O que aconteceu com Thomas Helwys e seus nove acompanhantes? Após a separação de John Smyth e seu grupo, a igreja, de março de 1609 até 8 de julho de 1611 (cerca de dois anos e meio), passou a se reunir provavelmente na casa de um de seus membros. Os historiadores afirmam que o período de permanência do pequeno grupo na Holanda após a separação havida não foi muito tranquilo, com conflitos surgidos entre as convicções batistas nascentes e as proposições da Igreja Menonita.
Assim, o “remanescente fiel”, embrião batista inglês em solo holandês, foi deslocado da padaria, onde começara, para uma casa que acolheu o grupo, para manter a fé e o culto dos irmãos. Da padaria de Jan Munter para uma casa acolhedora: foi assim que começou a nossa história batista, com uma congregação ainda anônima, cuja linha doutrinária ainda viria a ser definida em muitos detalhes, mas que acreditava firmemente ser aquele o caminho traçado por Deus para a vivência do evangelho de Cristo como Igreja, buscando a volta a uma linha neotestamentária.
A expressão “remanescente fiel” aparece na Bíblia diversas vezes (uma delas em Romanos, conforme citado no início), refletindo um pequeno grupo de pessoas que, separando-se de um todo que se corrompeu, decidiu-se a continuar firme na sua fé. Embora tendo o grupo maior excluído do meio batista continuado como cristãos, ligando-se a uma igreja menonita, o grupo inicial merece a denominação “remanescente fiel batista”, pois foi graças a esse pequeno grupo que a igreja batista passou a existir, sendo plantada e crescendo em solo inglês.  Como surgiu, afinal, a 1ª Igreja Batista Inglesa, aquela que deu origem a uma expansão que continua até hoje? Este é o assunto do próximo fascículo.

7 - A 1ª IGREJA BATISTA INGLESA

“Assim, durante um ano inteiro Barnabé e Saulo se reuniram com a igreja e ensinaram a muitos. Em Antioquia, os discípulos foram pela primeira vez chamados cristãos.” (Atos 11.26)

A perseguição religiosa desarraigou o evangelho de Jersalém, levando-o para a Judeia, Samaria e começando a chegar aos gentios, atingiu em Antioquia pessoas que o aceitaram e assimilaram tão bem, que fizeram surgir no mundo a denominação “cristãos”. Assim também, plantado inicialmente em Amsterdam, o “embrião batista” foi integralmente transplantado para as terras inglesas, surgindo em Spitalfields a primeira igreja que seria mais tarde chamada de batista.
Thomas Helwys, John Murton, William Pygott, e Thomas Seamer, além de outros seis irmãos ou irmãs, o grupo menor que se separou do grupo maior em Amsterdam, foram os iniciadores da primeira igreja batista histórica inglesa. Thomas Helwys (1550-1616), o líder, de família abastada, talvez tivesse sido aquele que havia financiado a viagem dos dissidentes para Amsterdam, tendo deixado esposa e filhos na Inglaterra. Consta que a esposa de Thomas Helwys tenha enfrentado prisão nas Ilhas Britânicas, como resultado da perseguição religiosa. Ainda na Holanda, Helwys acreditava que eles tinham o dever de retornar à Inglaterra e testemunhar da fé batista, apesar do sofrimento que isso traria. Os remanescentes do grupo inicial que procurou refúgio em Amsterdam retornaram à Inglaterra em 1611.
Thomas Helwys e os demais membros da sua congregação, na sua volta para Londres, foram residir em Spitalfields, o local de um antigo hospital nas cercanias da cidade de Londres. A área aproximada fica a leste da moderna Estação da Rua Liverpool, perto do mercado da região. Há quem aponte Pinner's Hall como local das reuniões iniciais, mas não se tem certeza a respeito do fato. Ali foi organizada a primeira igreja batista inglesa, em 1612.
O nome Spitalfields foi dado em função do hospital e de um convento, conhecidos como St. Mary's Hospital, fundados em 1197. A maior parte das construções na área ocorreram no meio do século XVII, depois do Grande Incêndio de Londres de 1666. O mercado de Spitalfields foi estabelecido nos anos de 1680. Spitalfields está hoje no coração do East End, uma área conhecida por constantes mudanças ao longo do tempo.
Tendo chegado a Spitalfields em 1611, os remanescentes batistas fundaram a primeira igreja batista inglesa histórica numa área que, cerca de cinquenta anos após, seria em parte destruída pelo grande incêndio. Quando isso ocorreu, a história mostra que a congregação batista havia mudado para outra região da cidade, tendo já frutificado, com a organização de outras congregações em Londres e arredores. Não há, portanto, no local registro da passagem batista, diferentemente do início em Amsterdam na padaria de Jan Munter. Se na Holanda foi possível a colocação de uma placa comemorativa dos 400 anos nas proximidades de onde tudo aconteceu, em Spitalfields isto seria muito mais difícil de acontecer.
Na época, Helwys escreveu “Uma Declaração de Fé do Povo Inglês”, a primeira confissão de fé batista em inglês, como resposta à “Curta Confissão” (Short Confession), escrita por John Smyth em 1610. A declaração batista continha o batismo do crente e a comunhão restrita apenas aos membros, além do sacrifício geral de Cristo e da queda da graça. Diz a Declaração que a igreja é estabelecida por confissão de fé e batismo, sendo autônoma, mas conectada com o todo; seus membros poderiam seguir as ordenanças sem pastor e não deveria a congregação ser muito grande. A autoridade e domínio da congregação se estenderiam apenas àquela congregação e seus oficiais seriam anciãos (ou pastores) e diáconos. A participação no governo do país, bem como seus juramentos, não eram proibidos aos membros da igreja.
Pouco tempo depois de escrito o livro “Uma curta declaração do Mistério da Iniquidade” (assunto do próximo fascículo), Thomas Helwys enviou cópia ao rei James I, com uma carta escrita a mão, ambas as fontes (livro e carta) preservadas pelo Museu Britânico. O período que vai de 1613 até 1616 na vida de Helwys é incerto, mas, a partir de 1614, não há mais menção do seu nome, sendo ele substituído na liderança da igreja por John Murton. O historiador B. Evans, em seu trabalho sobre os primeiros batistas ingleses, afirma a respeito de Helwys: “... sobre sua morte, não sabemos nada.”
John Murton tornou-se pastor da congregação depois da prisão de Helwys, tendo escrito o documento conhecido como “Humilde Súplica” ao rei, em 1620. Também ele enfrentou a prisão, pois declarava submeter-se ao rei em assuntos civis, mas não nos espirituais, pois o sacerdócio dos crentes lhes dá competência para resolvê-los diante de Deus. Morreu na prisão de Newgate.
Outros líderes batistas também se pronunciaram a respeito do assunto. Leonard Busher, membro leigo da congregação de Spitalsfield, escreveu em 1614 “Paz da Religião”, uma petição por liberdade de consciência, texto no qual compara a religião imposta pela força a uma violência espiritual. John Spilsbury, o primeiro pastor entre os Batistas Particulares, que ainda apareceriam, mais tarde, escreveria:“Nenhuma consciência deveria ser forçada em assuntos de religião, porque nenhum homem pode apoiar outro em suas contas com Deus”.
Os registros dão nota de que, por volta de 1624, havia em Londres cinco congregações batistas; já em 1647, o número havia crescido para 47. 
Foi a igreja liderada por Thomas Helwys, seguido de John Murton, a iniciadora da tradição batista no mundo: um embrião inglês que se formou na Holanda e, transplantado para o solo nativo de seus membros, cresceu, floresceu e deu frutos, resultando na significativa presença batista no mundo atual. Conforme se viu, os pioneiros batistas voltaram à Inglaterra ainda em um clima de opressão religiosa, de imposição do anglicanismo como religião oficial do estado. Muitos líderes batistas começaram a defender um tema que ainda era utópico, ou seja, a liberdade religiosa que devia haver no país, bem como a liberdade de consciência individual. “Uma Curta Declaração do Mistério da Iniquidade”, de 1612, escrito por Helwys, é um dos primeiros documentos batistas de fé, publicado em uma Inglaterra onde não se cogitava ainda a liberdade religiosa. O texto de Helwys será o nosso próximo assunto.

8 - HELWYS: DECLARAÇÕES DE FÉ E DE LIBERDADE

“Com efeito, o mistério da iniquidade já opera e aguarda somente que seja afastado aquele que agora o detém.” 2 Tessalonicenses 2.7

Thomas Helwys (1550-1616) foi, sem dúvida, um dos líderes batistas mais importantes entre os pioneiros do trabalho. Fiel companheiro de John Smyth até que a “congregação da padaria” se constituísse como nosso embrião batista na Holanda, com a “crise de consciência religiosa” de Smyth e sua adesão ao menonitas juntamente com a maioria da congregação, dependeu de Helwys e de sua firme liderança diante dos demais a manutenção da fé batista incipiente, não somente na permanência por mais algum tempo em Amsterdam, mas também na volta para a Inglaterra.
Ao voltar para a Inglaterra e continuar a enfrentar as restrições e a perseguição religiosa que ainda existiam, estando o rei James I ainda no poder, Helwys sentiu que deveria publicar sua visão com relação à liberdade religiosa entre o homem e Deus. Surgiu então, em 1612, “Uma Curta Declaração do Mistério da Iniquidade” (A Short Declaration of the Mystery of Iniquity). O rei inglês tinha tido seu nome ligado à publicação da Bíblia que se tornaria a mais popular da língua inglesa por muito tempo, Bíblia essa cuja primeira edição foi lançada na mesma época do livro de Helwys – 1611/1612. James I viu sua autoridade desafiada pelas idéias do líder batista e lançou-o na prisão de Newgate.
O título de “Uma Curta declaração do Mistério da Iniquidade” foi baseado no texto de Tessalonicenses já mencionado e nele Helwys interpreta “o mistério da iniquidade” como “um poder operante de Sanatás” e, dado seu contexto histórico, ele via esse mal especialmente na pompa, no poder e na política das Igrejas Católica e Anglicana, que conspiravam com os governos para negar a liberdade de consciência. De modo geral, no entanto, o “mistério da iniquidade” é identificado como o espírito de dominação e opressão em assuntos de consciência que existia em sua terra natal.
No livro, Helwys discute o estado deplorável da vida religiosa inglesa, identifica as Igrejas Católica e da Inglaterra com a profecia da segunda besta do Apocalipse, descreve os deveres e direitos do rei com relação à religião e aponta erros, tanto nos anglicanos, quanto nos puritanos e mesmo nos separatistas. Foi o primeiro tratado escrito na Inglaterra, e um dos primeiros no mundo, a apelar por completa liberdade religiosa para todos os povos. Helwys radicalmente desafiou o papel do estado nos assuntos eclesiásticos, declarando: “Porque a religião dos homens com Deus é entre Deus e eles mesmos. O rei não deve responder por isso. Nem deve o rei ser juiz entre Deus e o homem. Sejam eles heréticos, judeus, turcos, ou o que for, não pertence ao poder terreno puni-los de forma nenhuma”.
Opondo-se frontalmente à idéia de um ser humano (no caso, o rei da Inglaterra) como cabeça da Igreja, diz Helwys:

"Pois nós livremente professamos que nosso senhor o rei não tem mais poder sobre a consciência deles do que sobre as nossas, e isto é realmente nenhum poder. Pois nosso senhor, o rei, é apenas um rei terreno e não tem autoridade como um rei, a não ser em causas terrenas. E se o povo do rei for de súditos obedientes e verdadeiros, obedecendo a todas as leis humanas feitas pelo rei, nosso senhor, o rei, não pode requerer nada mais: pois a religião com Deus é entre Deus e eles mesmos; o Rei não responderá por isso, nem pode o Rei ser juiz entre Deus e o homem. Isto se torna evidente para nosso senhor, o rei, pelas Escrituras.”
           
Posicionando-se contra a religião oficial que se mantinha na Inglaterra, disse Helwys:

“... se houver coisa tão injusta e de tão grande e cruel tirania sob o sol quanto forçar a consciência dos homens em sua religião com Deus, vendo que, se eles errarem, ele precisarão pagar o preço e suas transgressões com a perda de suas almas. Oh, que o Rei julgue, não é mais adequado que os homens mesmos escolham sua religião, vendo que somente eles precisarão estar diante do trono de julgamento de Deus para responderem por si mesmos, quando não haverá desculpas para que eles digam que foram comandados ou obrigados a serem dessa religião pelo rei ou por aqueles que tinham autoridade dada por ele?”

É bom entendermos a importância da obra de Helwys para a sua época e mesmo para hoje. Foi o primeiro documento em inglês conclamando por completa liberdade de consciência em matéria religiosa; enquanto Smyth desejava liberdade de consciência para todos os cristãos, Helwys queria isso para todo mundo, cristão, judeu, muçulmano (turco), ou herético. O texto revela as condições políticas e religiosas que existiam durante o surgimento dos batistas, nos primeiros anos do século XVII, na Inglaterra, permitindo o entendimento das diferenças entre os incipientes batistas e outros grupos separatistas diferentes ali existentes. Nele encontramos as primeiras exposições de doutrinas que os batistas abraçariam e desenvolveriam ao longo do tempo, com temas como o batismo do crente, uma forma congregacional de política eclesiástica, o direito do indivíduo de ler e interpretar as Escrituras por si mesmo, além da separação entre igreja e estado. O livro destaca a importância da figura de Helwys nos primórdios batistas, revelando seus pensamentos de forma clara. Sua linguagem pode ser por vezes aguda e ácida, mas reflete bem o temperamento combativo de seu autor.
Uma religião estatal, também chamada religião oficialigreja estabelecida ouigreja estatal, é um corpo ou credo religioso oficialmente adotado pelo estado. A primeira igreja nacional histórica dentro do cristianismo foi a Igreja Ortodoxa Armênia, estabelecida em 301 A.D. A oficialização do cristianismo em todo o Império Romano ocorreu no final do século IV, quando “o imperador Teodósio fez da crença no cristianismo uma questão de autoridade imperial”, segundo as palavras do historiador Bruce Shelley. Mesmo com o advento da Reforma, algumas denominações protestantes continuaram como religião oficial, dando sequência à tradição do catolicismo romano, como aconteceu com o Luteranismo na Alemanha e com o Anglicanismo na Inglaterra.
William R. Estep, autor do livro contemporâneo “Revolução dentro da Revolução: A Primeira Emenda em Contexto Histórico 1612-1789”retoma o tema de Helwys sobre o voluntarismo, comentando: “Seu autor não pede ao rei, como uma criança chorosa, que conceda tolerância religiosa a uma seita desprezada e suspeita. Em vez disso, o autor adverte o rei a não pecar contra Deus ao negar aquilo que Deus havia ordenado para toda a humanidade: um relacionamento com Deus que fosse tão pessoal quanto voluntário”. A leitura do livro certamente levará o leitor mais atento a se admirar com relação ao grau de conhecimento bíblico que Thomas Helwys, um leigo batista, pôde desenvolver em sua experiência pessoal com Deus.
No próximo fascículo, conheceremos os “Batistas Gerais”, o primeiro grupo de igrejas da história, exatamente aquelas que provieram de Smyth, Helwys e tiveram continuidade com Murton.

9 - OS BATISTAS GERAIS

“Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens...” Tito 2.11

A congregação de Thomas Helwys e John Murton iniciou uma linha de igrejas em solo inglês que seria mais tarde conhecida como os “Batistas Gerais”. John Murton tinha sido um comerciante de peles em Gainsborough-on-Trent, tornando-se um seguidor de John Smyth enquanto na Holanda, e retornando à Inglaterra como um componente do grupo de Helwys. No período em que o líder esteve na prisão, a congregação deve ter sofrido perseguição, tendo que passar algum tempo, talvez, na clandestinidade. Murton tornou-se o líder da igreja após a morte de Helwys (cerca do ano 1616), tendo dado continuidade às linhas básicas estabelecidas.
Por volta de 1624, parece que a congregação estava vivendo momentos difíceis. Nessa época, foi levantada por Elias Tookey e alguns membros a questão da magistratura. Pessoas que trabalhavam para o governo e eventualmente portavam armas por causa de sua função eram consideradas corruptas pelo grupo de Tookey. Havia forte influência anabatista no grupo e o assunto já havia aparecido anteriormente, sob a liderança de Helwys, que defendeu a continuidade daquele grupo de pessoas como membros na igreja. Após deliberação da assembléia, a questão da magistratura foi resolvida com a manutenção dos seus integrantes na igreja e exclusão de Elias Tookey e outras dezesseis pessoas que o seguiam.
John Murton, além das qualidades de liderança, mostrou também talento de escritor, conforme comprovam suas obras. Ele publicou em 1615 um texto chamado“Perseguição por religião julgada e condenada, em um discurso entre um anticristão e um cristão”; em 1620, outro texto sobre predestinação intitulado “Uma descrição do que Deus tem predestinado concernente ao homem”; e, em seguida, um elaborado pedido ao Rei por liberdade de religião, com o subtítulo “Uma súplica muito humilde de muitos dos leais súditos dos reis, que são perseguidos somente por diferirem em religião”. Apesar da feroz perseguição pela igreja estatal, a congregação contava com cerca de cento e cinquenta membros por volta da metade da década de 1620, ocasião na qual os dezesseis membros seguidores de Tookey foram excluídos. A igreja mantinha correspondência com os menonitas de Amsterdam, conforme atestam cartas de 1624 e 1625 preservadas nos registros. Pode ter acontecido que alguns membros da igreja de Smyth da antiga “congregação da padaria” em Amsterdam, de volta à Inglaterra, tenham se juntado às congregações batistas já existentes, mas as informações são imprecisas.
             Houve, na mesma década de 1620, uma tentativa de volta ao batismo infantil entre os batistas gerais, tentando agradar a uma parte da congregação. A maioria, no entanto, continuou firme na defesa do batismo adulto do convertido, o qual foi mantido.
As Igrejas Batistas decorrentes do trabalho inicial de Helwys e Murton passaram a ser chamadas de “Batistas Gerais”, por sua tônica fortemente anticalvinista. Pregavam uma mensagem de salvação universal arminiana ou “de livre arbítrio”, teologia desenvolvida por Jacobus Arminius (1560-1609). O arminianismo entende que o homem tem livre-arbítrio, pelo qual pode crer e aceitar a Cristo livremente, para depois ser regenerado; crê ainda que Deus escolheu aqueles que ele, pela sua presciência, viu que iriam responder com fé à dádiva do evangelho; seu ensino diz que Jesus morreu para tornar possível a salvação a todos os homens; a graça, segundo o arminianismo, pode ser resistida por aqueles que não creem; crentes nascidos de novo podem vir a cair da fé e a perder a salvação. A salvação estendida a todos os homens em geral é o item que define o nome de batistas gerais. Essas igrejas encontraram muita aceitação entre as classes mais pobres de Londres e nas áreas rurais da Inglaterra. Os Batistas Gerais aceitavam a salvação por boas obras e a separação entre igreja e estado. Incorporaram a estrutura administrativa da igreja formada de Anciãos (ou pastores) e Diáconos, como defendia inicialmente John Smyth, bem como praticavam o batismo adulto, com forte ênfase na salvação pessoal individual.
Até a década de 1640, as congregações batistas gerais se espalharam através da Inglaterra e, em 1641, uma reunião geral foi realizada em Whitechapel, Londres, na busca de uma organização geral, semelhante à atual ideia de convenção. São estimadas pelos historiadores cerca de cinquenta congregações ativas por volta de 1650; eram congregações mais abertas e menos estruturadas do que outros grupos independentes. Os batistas gerais sofreram por causa de suas características, já que seus pregadores itinerantes eram considerados criadores de confusão por muitas autoridades civis e eclesiásticas através da Inglaterra, sendo, porém, muito populares entre o povo comum.
Os batistas atuais tiveram seu início nos batistas gerais, cuja origem se liga ao embrião batista de Amsterdam, trazido de volta à Inglaterra e plantado em solo inglês, com começo em Spitalfield. A influência anabatista e de Jacob Arminius era bastante forte, tendo a congregação surgido à sombra da forte igreja menonita holandesa. Opondo-se à visão geral arminiana dos primeiros batistas, surgiram, pouco menos de 30 anos depois, os batistas particulares, assunto do próximo fascículo.

10 - OS BATISTAS PARTICULARES

       "Quem fará alguma acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica.” Romanos 8.33

De acordo com alguns historiadores, a primeira “Igreja Batista Particular” foi fundada no final da década de 1630. Assim diz o historiador Cairns:

“O grupo mais forte de batistas calvinistas ou particulares originou-se de um cisma da congregação de Henry Jacob em Londres, entre 1633 e 1638. Eles defendiam o batismo dos crentes por imersão e uma teologia calvinista que enfatizava a expiação limitada (só para os eleitos). Foi essa congregação, primeiro dirigida por John Spilsbury, que, a partir de 1638, se tornou a mais influente do movimento batista inglês. Os antecedentes do movimento batista norte-americano podem ser encontrados nesse grupo.”

Henry Jacob (1563-1624), citado por Cairns, é um dos nomes mais importantes na história das origens do congregacionalismo inglês. Foi um dos participantes da Petição Milenar a James I, em 1603, solicitando mudanças na igreja anglicana. Clérigo ordenado e ativo no movimento de reforma puritana dentro da Igreja da Inglaterra, foi preso, exilou-se na Holanda (onde participou com John Robinson da congregação de Leyden, assunto ainda a ser abordado) e, voltando à Inglaterra, começou a pôr em prática seus conceitos de um tipo novo de política congregacional, mostrando tradições mais avançadas de separatismo ao defender que a autoridade na escolha de seu pastor era da congregação e de seus membros, não da Igreja Nacional, bem como na determinação de programas e na administração dos negócios da igreja. Em 1615, em Southwark, Jacob formou uma congregação nos moldes do Novo Testamento, apontada como a primeira Igreja Congregacional estabelecida e permanente na Inglaterra.
Desde a formação da congregação de Henry Jacob, o assunto pedobatismo era discutido nas congregações separatistas, coisa que ocasionou cisma na igreja.  Por volta de 1633, criam eles que o batismo não era administrado de forma correta quando aplicado às crianças, julgando alguns que aquele batismo deveria ser considerado inválido. Assim sendo, muitos receberam como adultos outro batismo no pastorado de John Spilsbury. Em 1639, outra congregação foi formada, a qual se reunia em Crutched Fryars. Segundo os historiadores, foi essa a primeira igreja batista particular na Inglaterra.
O calvinismo, movimento que influenciou os batistas particulares, havia dado origem à igreja presbiteriana a partir de 1572. Calvino entendia que o homem é absolutamente incapaz de ir a Cristo por si só, pois está morto espiritualmente e precisa (antes de qualquer ação de sua parte) ser vivificado em seu espírito e renovado em sua vontade; cria ainda que Deus escolheu, de forma soberana e graciosa, aqueles a quem iria salvar, sem que nada neles os habilitasse a isso; afirmava ele que Jesus Cristo morreu para tornar certa a salvação daqueles que Deus havia escolhido na eternidade, os eleitos, chamados de forma eficaz, de modo que todos sejam salvos. Finalmente, creem os calvinistas que todos os que foram verdadeiramente regenerados irão perseverar em sua vida de fé, sem perda da salvação.
Numa tentativa de melhor definir as idéias de Calvino, comparadas com as de Armínio vistas no fascículo anterior, veja-se o esquema a seguir: 

Arminianismo
BATISTAS GERAIS
ü  Livre arbítrio
ü  Eleição condicional  
ü  Expiação Ilimitada
ü  Graça resistível 
ü  Perda da salvação

Calvinismo 
BATISTAS PARTICULARES
ü  Total depravação                 
ü  Eleição incondicional         
ü  Limitada expiação                 
ü  Irresistível graça                 
ü  Perseverança dos santos  

Devido à influência calvinista, os batistas particulares rejeitavam de início qualquer relacionamento com John Smyth ou os primitivos batistas gerais. Por volta de 1643, aconteceu a assinatura da Confissão de Fé Comum, com sete congregações batistas particulares participantes. A Primeira Confissão de Fé de Londres (1644) tornou-se posteriormente a declaração religiosa para os Batistas Particulares londrinos, documento esse que se antecipou à Confissão de Fé deWestminster de 1646. Apesar de não esgotar o assunto, a confissão foi um forte argumento que ajudou a unir os primitivos batistas particulares. Uma segunda confissão foi desenvolvida em 1677, refletindo a Confissão de Westminster (1647) e a Declaração de Savoy (1658), confissões de fé essas que lidavam com assuntos como que tipo de poder as associações representativas nas igrejas tinham sobre as igrejas locais, bem como estabeleciam uma posição sobre o batismo de crentes, ao invés de manter o batismo infantil.
Apesar de a história batista ter seu início com o movimento dos batistas gerais, é, na verdade, aos batistas particulares que a maioria dos batistas modernos deve a maior parte de suas doutrinas e práticas. Como a história afirma, os batistas gerais sempre representaram uma pequena parte da vida batista na Inglaterra, e uma parte menor ainda na América. Por volta de 1644, os batistas particulares contavam, como já se viu, pelo menos com sete igrejas. O movimento batista continuou a crescer e, em 1660, havia 300 igrejas na Inglaterra, considerando-se os gerais e os particulares.
Não há, portanto, uma ligação direta inicial entre os batistas gerais e os particulares, tendo cada grupo tido sua origem a partir do separatismo puritano da igreja anglicana. Embora com origens separadas, cada grupo contribuiu para uma continuação da história batista na Inglaterra, bem como na vinda dos batistas para o Novo Mundo.
Apesar de existirem ainda hoje alguns grupos que neguem sua ligação ao grupo inicial de Smyth, o fato é que a história acabou por juntar, de certa forma, as igrejas oriundas do início geral de Smyth com aquelas congregações particulares que se iniciaram com Spilsbury. Nenhuma dos grupos, porém, levava naquele início o nome de “batista”, que acabou por dar nome às igrejas mais tarde. Aliás, o nome “batista” está relacionado com a introdução da imersão como forma de batismo na história dos batistas, como veremos no próximo capítulo.

11 - IMERSÃO E O NOME "BATISTAS"

“... fomos sepultados com ele na morte por meio do batismo, a fim de que, assim como Cristo foi ressuscitado dos mortos mediante a glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova.” (Romanos 6:3-4)
           
O batismo, ao longo da história do cristianismo, tem passado por muitas visões e práticas diferentes, seja com relação à sua forma, seja com referência ao seu significado.
A forma de batismo por imersão foi usada no começo pela igreja primitiva, já que o sentido da palavra no grego leva a essa compreensão, e foi mantida pela igreja católica romana, em algumas regiões, pelo menos até o século XIII, apesar de tantas heresias introduzidas. A igreja católica ortodoxa ainda o utiliza até os dias de hoje. As formas de batismo por aspersão ou por ablução foram aos poucos sendo introduzidas em algumas regiões, principalmente por causa da temperatura da água nas regiões de clima mais frio, além do atendimento a pessoas que, por deficiência ou debilidade física, não podiam ser batizadas por imersão. De formas de exceção, elas passaram a regra geral com o correr do tempo. Quanto ao significado do batismo, a heresia começou mais cedo, com a mudança de ato simbólico para sacramento e, consequentemente, com a introdução do batismo infantil, lentamente, já a partir dos primeiros séculos do cristianismo. Tal situação continuou até a Reforma Protestante e mesmo depois, tendo sido o batismo infantil e a aspersão mantidos por muitos grupos protestantes.
Partindo-se do separatismo da igreja anglicana, sabe-se que, em 1610, Henry Jacob mencionou a imersão, considerando-a o modo bíblico adequado do batismo, mas não restaurou sua prática. Em 1614, Leonard Busher defendeu-a em Religion’s Peace, dizendo que Cristo “havia mandado ser batizado na água, ou seja, mergulhando para a morte na água”. Nos anos de 1630, Mark Luker, da igreja de Eaton, também defendeu a imersão.
O batismo é realmente a marca inicial batista, mas, como já se viu, a preocupação inicial de Smyth e seus seguidores não foi quanto à forma da ordenança, mas quanto ao seu significado. Em uma época na qual o pedobatismo era a prática cristã comum, a “congregação da padaria” na Holanda passou a entender que, na igreja primitiva, a igreja local era formada por pessoas convertidas e batizadas. A forma de batismo na época foi, segundo se crê, a aspersão, mantida por Helwys inicialmente na Inglaterra entre os batistas gerais.
A forma do batismo por imersão surgiu com os batistas particulares. O Manuscrito de Kiffin (William Kiffin, 1616-1701), documento escrito por um dos primitivos batistas particulares, afirma que, durante os anos de 1640, Robert Blount, um membro de fala holandesa da congregação de Jessey, de Londres, foi enviado à Holanda para se informar sobre a maneira apropriada de batismo, tendo entrado em contato com os Rhynsburgers, ou Collegiants, uma seita liberal de origem menonita baseada nos arredores de Rinjsberg; eles praticavam o “batismo do crente por imersão”. Segundo o documento, em janeiro de 1642, Blount foi devidamente batizado e, retornando à Inglaterra, batizou outro, chamado Samuel Blacklock. Esses dois batistas, então, batizaram os outros 53 membros da congregação. Nem todos os integrantes da igreja de Jessey concordaram com a necessidade do rebatismo por imersão. Alguns questionaram a consulta aos anabatistas e outros expressaram dúvidas sobre sucessionismo, teoria que defende a origem dos batistas nos dias que antecedem o período apostólico, conhecida também como JJJ (Jerusalém, Jordão João), assunto que ainda será estudado. Embora a autenticidade do Manuscrito de Kiffin seja contestada por alguns historiadores, ele se constitui num dos únicos documentos existentes sobre aquele evento da história batista.
No início, muitas pessoas costumavam assistir aos cultos batistas movidas pela curiosidade, para testemunharem a um batismo por imersão, alguns até ridicularizando o ato. O apelido “batista” foi então dado para descrever as pessoas que praticavam essa “estranha” forma de batismo, nome que acabou prevalecendo. A Primeira Confissão Londrina dos Batistas Particulares, de 1644, diz a respeito do batismo o seguinte: “O modo e maneira de dispensação desta ordenança é, segundo as Escrituras, mergulhando ou imergindo todo o corpo na água”.
A primeira referência conhecida quanto ao nome das igrejas como “Batistas” na Inglaterra data de 1644, denominação inicialmente rejeitada por eles, que usavam outros nomes, como “Irmãos”, ou “Irmãos do Caminho Batizado”, sendo as congregações chamadas de “Igrejas Batizadas”. Oponentes iniciais dos batistas frequentemente os chamavam de anabatistas ou outros nomes menos apropriados, o que era também por eles rejeitado. Na confissão de fé de Londres de 1644, por exemplo, o grupo de igrejas que a assinam se identifica como “os cristãos comumente (embora falsamente) chamados Anabatistas”. O nome “batistas”, assim como acontecera anteriormente com o nome “puritanos”, dado por pessoas exteriores ao movimento com propósitos pejorativos, acabou prevalecendo.
Historicamente falando, o modo batista de ser igreja não nasceu pronto, acabado, mas suas doutrinas e práticas foram sendo incorporadas como conquistas ao longo do tempo, muitas vezes de forma difícil, no enfrentamento de oposições e perseguições. É preciso conhecer nossa história, para valorizarmos nossas conquistas e lutarmos pela preservação da fé cristã como vivida pelos batistas.
A música era outra prática que não fazia parte do culto batista no início, mas houve um pioneiro e um momento em que o louvor musical foi introduzido no culto; é o assunto do próximo fascículo.

12 - A MÚSICA E O CULTO BATISTA PRIMITIVO

"E, tendo cantado o hino, saíram para o Monte das Oliveiras.” Mateus 26.30.

O texto que inicia este estudo se refere a Jesus e seus apóstolos. O livro de Atos não entra em detalhes sobre a ordem de cultos da igreja primitiva ou se a música era utilizada.  E quanto aos batistas, como era o seu culto a Deus, quando a igreja iniciou suas atividades neste mundo, 400 anos atrás?
No princípio, os cultos batistas eram bastante longos, às vezes com vários sermões, e nos dias iniciais não havia música ou canto. O registro mais antigo de um culto batista que se conhece é de 1609, do grupo ainda em Amsterdam, em uma carta de Hughe e Anne Bromhead, que, relatando uma “ordem de culto” inicial, assim dizia:

“A ordem do culto e direção de nossa igreja é: Primeiro, nós começamos com uma oração, depois a leitura de um ou dois capítulos da Bíblia que deem sentido à reunião e a direcionem; isso feito, nós deixamos nossos livros de lado e, após uma oração solene feita pelo 1º orador, ele propõe algum texto próprio da Escritura e profetiza sobre o mesmo, pelo espaço de uma hora, ou três quartos de uma hora.” (tradução livre do autor dos fascículos, partindo do original inglês do século XVII).

A carta de Bromhead conclui dizendo que “este exercício da manhã começa às oito horas e continua até doze horas; o mesmo curso de exercício é observado à tarde, das 2 até 5 ou 6 horas”. O casal mencionado, Hughe e Anne Bromhead, fez parte dos membros fundadores da “congregação da padaria” no fascículo 5 e, na separação havida, ficaram ambos com Smyth e os menonitas. Segue, como curiosidade histórica, o texto em inglês antigo, linguagem característica da época, contemporânea ao inglês da versão “King James” da Bíblia:

“The order of the worshippe and government of oure church is . 1. we begynne wth a prayer, after reade some one or tow chapters of the Bible gyve the sence thereof, and conferr vpon the same, that done we lay aside oure bookes, and after a solemne prayer made by the 1. speaker, he propoundeth some text owt of the Scripture, and prophecieth owt of the same, by the space of one hower, or thre Quarters of an hower. This Morning exercise begynes at eight of the clocke and continueth vnto twelve of the clocke the like course of exercise is observed in the afternowne from .2. of the clock vnto 5. or 6. of the Clocke."

Sobre a música no culto, o reformador Lutero disse: “Próximo à Palavra de Deus, a música merece o mais alto louvor. O dom da língua combinado com o dom do canto foi dado ao homem para que ele pudesse proclamar a Palavra de Deus através da música”. Não foi essa, porém, a compreensão dos batistas no início de suas atividades como igreja. A música não estava presente nos primeiros e longos cultos batistas, que tinham sua ênfase na leitura e exposição bíblica e na oração, conforme já focalizado. Parece que havia nos pioneiros da obra um desejo de cultuar a Deus de forma a afastar-se das práticas heréticas, numa busca do cristianismo neotestamentário. Como a música já estava incorporada às igrejas cristãs em geral, tanto católica quanto anglicana, os primeiros batistas não a utilizaram de início.
Diz Bill Prater, em seu texto “História da Música na Igreja Batista”: “ ... há uma história chamada ‘Cantar ou não cantar’. É sobre um homem com o nome de Benjamin Keach que, com a idade de 28 anos, tornou-se pastor da Igreja Batista em Horsleydown, Londres”. Keach também viera da Igreja Anglicana, tendo sido batizado quando criança, mas, com a idade de 15 anos, ele se juntou aos Batistas Gerais e, com 18 começou a pregar. Mais tarde, uniu-se aos Batistas Particulares. Diz a história ter sido ele preso várias vezes, por pregar o batismo do crente.
Salientando em Benjamin Keach seu relacionamento difícil como ser humano, diz o autor citado que, entre as polêmicas nas quais o pastor esteve envolvido, uma delas foi a questão de haver ou não haver cântico congregacional em cultos públicos, a chamada “Controvérsia do Cântico”. Acredita-se que a igreja de Keach foi provavelmente a primeira entre os batistas a introduzir o cântico congregacional, usado inicialmente apenas após a Ceia do Senhor. Cerca de vinte anos depois, após muito conflito, a congregação já cantava todos os domingos, mas somente após o sermão e as orações. O autor ressalta que os dissidentes saíam do prédio da igreja, permanecendo no pátio de entrada porque “eles não podiam conscientemente permanecer e ouvir o cântico”. Esses dissidentes eventualmente se desligaram da igreja e formaram outras unidades, situação que se repetiu no ambiente das igrejas batistas inglesas durante algum tempo.
Em 1691, Benjamin Keach publicou um hinário intitulado “Melodia Espiritual” (Spiritual Melody), contendo cerca de trezentos hinos sacros. O problema nos dias de Keach parecia ser a dúvida se era carnal ou espiritual a introdução da música no culto, além do uso de um hinário, um livro que não era a Bíblia. Durante a “Controvérsia do Cântico”, vários argumentos foram levantados contra a novidade; entre eles podemos destacar:
ü  Não ser ordenado pela Bíblia que devesse acontecer.
ü  Nada indicar que a igreja primitiva cantasse.
ü  O cântico levar a um formalismo, já que era encarado como uma oração escrita.
ü O cântico congregacional comprometer a pureza da igreja, já que dele participavam salvos e não-salvos.
Hoje, entre os batistas do século XXI, a controvérsia do cântico permanece, não mais se questionando ser ou não bíblico o uso da música no culto, mas que tipo de melodia, de ritmo e que instrumentos podem ser usados no acompanhamento do cântico, tanto congregacional, quanto coral, ou de outros grupos.
Sendo a sua forma de governo congregacional, os batistas não possuem um governo central ou um líder maior, sendo cada congregação autônoma nas suas decisões. Não houve, por exemplo, interferência de um organismo central para definir a “controvérsia do cântico”. No entanto, existem convenções, associações e outros tipos de agrupamentos que procuram organizar a cooperação entres as igrejas. Quando foi que isto começou? Este é o assunto do próximo fascículo.

ÍNDICE DOS FASCÍCULOS

Introdução 1)    16 séculos de Igreja Cristã 2)    Anglicanismo: a Igreja do Rei 3)    Puritanos, Separatistas, Batistas 4)    A “C...